domingo, 5 de fevereiro de 2012

luvas aos pés


Daí o lençol sempre acabava voando comigo pela casa. Sempre tive um cuidado muito grande para não esquecer do tempo e acabar dormindo no teto, sem querer. Minhas luvas de borracha cor de laranja (de laranja) assustavam qualquer tipo de inseto que pensava em voar ao meu lado. Então eu ligava o chuveiro, deixava a água bem quente, saía correndo e me jogava pela sacada. Eu nunca morri, eu sempre voava, voava feito um menino de lençol com luvas laranjas, laranjas.

sábado, 14 de janeiro de 2012

mensagem de necessidade aos deuses


digo a quem quiser ouvir:
dos meus vícios cuido eu.

essa pele que eu tenho tão perto dos meus olhos deixa as minhas mãos calejadas, imóveis.
não consigo pegar e dizer que quero que me tenha,
que quero que me acabe,
que quero que me mate.

Outras vozes permitem que eu abra a janela e me jogue, mas e o portão do bosque, ainda está aberto?

Queria um último buquê de margaridas, uma última rosa de hiroshima, uma tulipa lilás e um vaso de violetas amarelas. Uma xícara de café não me faria tão mal, melhor ainda se viesse acompanhada de uma dúzia de barras de chocolate com castanha e três trufas de maracujá. Não se esqueça da minha dose de vodca polonesa, dos meus sapatos turcos, da minha luva francesa, dos meus óculos ingleses e da grama verde de Amsterdã.

Peça emprestada as vestes do Papa, a coroa de espinhos de Jesus e as cinzas de vítimas do holocausto. Traga incensos de maçã verde, pratos gregos, mulheres portuguesas e homens italianos.

Exijo que todos os corpos permaneçam nus, em contato extremo, como se o amanhã tivesse sido apagado.

Alugue o Palácio de Versalhes e providencie uma corda amarrada no vão central. Violinos e harpas envenenadas serão tocadas pelos meus melhores amigos e quero que todos estejam vestidos com saias brancas.

Ao meu sinal,
gostaria de uma salva de palmas durante três anos consecutivos
e depois
e depois
e depois
queime o meu corpo e apague a minha história.

- Não me perturbe com falsas suposições de que algo possa dar errado e de que coisas simples como essas não possam ser adquiridas. Eu preciso e Eu mereço.


o anel que tu me deste

Não quero mais e já não mais queria faz tempo. Levei em consideração tudo que ela me dissera até então, mas eu já não mais sentia, não mais queria.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

boa noite, procure não dormir e pensar em mim.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

essa moça

a gente se olhava e sorria
enquanto tomava sorvete
de morango.
lembro que os pedaços de morango
era a melhor parte, a gente se lambuzava
e acabava por rir até não acabar mais.

sua musicalidade me deixava sério e
sua boca
sua boca
sua boca
sua boca
não me deixava aqui.

quantas vezes me calei diante do seu corpo,
seu desfilar,
meus olhos..

olho aqui na janela e
e e
e
e me coloco a sentir
a falta dos seus acordes,
de suas mãos,
da tua
pele.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

camiseta verde

o som de um molho de chaves barulhento ia aumentando a medida de que passos mais fortes se sobressaíam pelo corredor. três batidas na porta e a minha dor de cabeça agradecia. quebrei a ponta do lápis em cima do papel sujo de sangue e café, arrastei a cadeira com força como quem quisesse fazer mais um barulho irritante para se torturar. Levantei rapidamente, fiquei um pouco tonto, dei três passos e parei. Mais três batidas na porta e os quadros presos às paredes de madeira pareciam querer se jogar. Mais oito passos. Voltei um em função da apatia pelo que é par e girei as três fechaduras que me protegiam. Ainda tonto, ainda com dor, ainda de pé, interrompido. Abri a porta e um homem perguntava por Maria. Eu morava só, eu e minha dor de cabeça, eu e minha tontura - eu e minha paciência. Neguei a existência de maria e fui rebatido com uma insistência chata.

- Não tem maria, não tem ninguém, não tem nem mesmo quem está falando com o senhor, meu caro.

Fui grosseiro, era grosseiro, tinha de ser grosseiro.

Ele já estava se voltando para o desfile horroroso dos passos junto ao som das chaves quando eu pedi se ele poderia me fazer um favor. Claro, ele respondeu.

- Tire os sapatos e as chaves do bolso e entre.

Pedinte, grosseiro e agora um louco. Não, ele me disse com um riso constrangido. E eu retruquei um pouco mais alto, já segurando o braço defeso: tire os sapatos e as chaves do bolso e entre! Um rosto masculino com raiva estava de frente para mim. Soltei o braço e disse entre, por favor.

Não tirou os sapatos, nem as chaves e entrou, mas entrou. Fechei uma única das três fechaduras, ofereci café gelado e me aproximei. Coloquei a mão no bolso que não era meu, tirei as chaves, joguei pela janela. Me retribuiu com alguma frase impondo minha loucura ou insanidade, mas eu agora tinha um olhar fixo e com o olhar eu o calei.

Faltam apenas os sapatos, sugeri. Tirou os sapatos sem entender e eu indiquei a poltrona vermelha e velha de couro como conforto. Fechei a única janela daquele perímetro, liguei um abajur e o fiz companhia por aquele momento sem maria, sem barulho,
em silêncio.


domingo, 18 de setembro de 2011

apostila

sombras de um estar sempre adormecido
nunca se desligam nem nunca acabam.
o último dia aqui, digerindo carne humana
como sacrifício mal pago