terça-feira, 20 de março de 2012

páginas estupradas


Paletó amarelo, cinto alaranjado, botas de vermelho vermelho,
chapéu verde água de março, lenço azul no pescoço,
perfume doce tonto e gravata borboleta cor de lilás primavera.
Postura ereta e a contagem dos passos se dava de três em três,
preferia composições ímpares.
Dentes bem brancos e lábios de carne vermelha de homem
que gosta de homem.
Desceu as escadas, parou no trigésimo terceiro passo,
abriu a porta, abriu um sorriso, abriu o coração, coração de carne,
de homem, de vermelho, de paixão, de tentativa de homem.

Calça jeans escura, tênis baixo claro, blazer azul marinho (sem peixes),
cheiro de chão e de cão e homem, um cachecol amarelo e um meio
sorriso de amor.
Gostava de pares, queria ser o um para poder ter o outro,
tinha pressa, tinha carne, tinha necessidade de toque.

Fechou a porta e em tempos e contratempos iniciava-se uma dança.

(Lábios verdes de primavera que gostam de homem no trigésimo
terceiro sorriso, paixão que tenta e que cai pela escada no chão.
Abre agora a minha carne e inicia esse vermelho de borboleta
que passa escuro ao meu lado. Minha doçura está escondida
detrás da porta, sem pressa, de homem, com homem.)

- perda de contato


quinta-feira, 15 de março de 2012

brincando de astronauta


amarelo acinzentado para os pobres
azul quente esverdeado para os cães
rosa levemente rosa para as damas
preto esbranquiçado para os poucos
vermelho perolado para os tais
arco-íris enfraquecido para os outros

e o singelo e transparente amor para você

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

prazer a dois

sorvete de morango, com pedaços de morangos
com artificialidade de morango,
de morango, com morangos,
em forma de morango e em mente de morangos frescos.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

porque metade de mim é platéia


Teu sorriso em arco-íris com gosto de picolé de tangerina bateu hoje cedo na minha porta. Não houve troca de olhares, nem a constante falta de respeito. Quem me telefonou ontem foi a senhora sua falta de ar, disse-me que você anda meio confusa, que quase não fala mais. Ainda consigo ouvir o som do piano e lembrar dos nossos corpos contagiados. As amoreiras andam tão bonitas por aqui, você deveria estar aqui ouvindo o que elas dizem.

-volta logo.

luvas aos pés


Daí o lençol sempre acabava voando comigo pela casa. Sempre tive um cuidado muito grande para não esquecer do tempo e acabar dormindo no teto, sem querer. Minhas luvas de borracha cor de laranja (de laranja) assustavam qualquer tipo de inseto que pensava em voar ao meu lado. Então eu ligava o chuveiro, deixava a água bem quente, saía correndo e me jogava pela sacada. Eu nunca morri, eu sempre voava, voava feito um menino de lençol com luvas laranjas, laranjas.

sábado, 14 de janeiro de 2012

mensagem de necessidade aos deuses


digo a quem quiser ouvir:
dos meus vícios cuido eu.

essa pele que eu tenho tão perto dos meus olhos deixa as minhas mãos calejadas, imóveis.
não consigo pegar e dizer que quero que me tenha,
que quero que me acabe,
que quero que me mate.

Outras vozes permitem que eu abra a janela e me jogue, mas e o portão do bosque, ainda está aberto?

Queria um último buquê de margaridas, uma última rosa de hiroshima, uma tulipa lilás e um vaso de violetas amarelas. Uma xícara de café não me faria tão mal, melhor ainda se viesse acompanhada de uma dúzia de barras de chocolate com castanha e três trufas de maracujá. Não se esqueça da minha dose de vodca polonesa, dos meus sapatos turcos, da minha luva francesa, dos meus óculos ingleses e da grama verde de Amsterdã.

Peça emprestada as vestes do Papa, a coroa de espinhos de Jesus e as cinzas de vítimas do holocausto. Traga incensos de maçã verde, pratos gregos, mulheres portuguesas e homens italianos.

Exijo que todos os corpos permaneçam nus, em contato extremo, como se o amanhã tivesse sido apagado.

Alugue o Palácio de Versalhes e providencie uma corda amarrada no vão central. Violinos e harpas envenenadas serão tocadas pelos meus melhores amigos e quero que todos estejam vestidos com saias brancas.

Ao meu sinal,
gostaria de uma salva de palmas durante três anos consecutivos
e depois
e depois
e depois
queime o meu corpo e apague a minha história.

- Não me perturbe com falsas suposições de que algo possa dar errado e de que coisas simples como essas não possam ser adquiridas. Eu preciso e Eu mereço.


o anel que tu me deste

Não quero mais e já não mais queria faz tempo. Levei em consideração tudo que ela me dissera até então, mas eu já não mais sentia, não mais queria.